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Se me perguntarem hoje qual a maior ameaça que enfrentamos enquanto enquanto espécie, não tenho qualquer dúvida de que é o aquecimento global. Uma ameaça que atinge os alicerces da nossa civilização e que ameaça os ecossistemas à escala planetária.

Pela primeira vez, na longa história do planeta, uma espécie é a causa de mudanças globais, tendo-se tornado na principal força transformadora da geologia do planeta Terra. Hoje, a comunidade científica aceita que saímos do período do Holoceno e entramos no Antropoceno. Um novo período geológico marcado pela influência da espécie humana.

O reconhecimento de que o planeta aquece devido à actividade humana, nomeadamente devido à libertação para a atmosfera e para os oceanos de gases como o metano e o dióxido de carbono não é aliás novo. No final do século XIX os cientistas começaram a falar disso. Na altura, não como um problema mas como uma constatação cujas consequências, aprazadas para milhares de anos, até poderiam ser úteis. Estava-se longe de saber que o século seguinte seria o século da grande aceleração que iria mudar tudo, incluindo a escala temporal dos processos e dos efeitos.

O aquecimento global resulta da utilização de energia fóssil, da libertação para a atmosfera e os oceanos, num curto espaço de tempo, de milhões, biliões, triliões de toneladas de dióxido de carbono que estava sequestrado no subsolo do planeta e que havia permitido a existência e a diversificação da vida e a estabilidade dos ecossistemas. Quando em 2015 se chegou ao importante Acordo de Paris foi numa situação de emergência. Um reconhecimento de que não havia ponto de retorno e que o problema é tão grande e urgente que são necessárias respostas partilhadas à escala global. O reconhecimento que o problema exige soluções políticas inadiáveis e um novo paradigma de governação. Trata-de de um problema que não tem fronteiras, mas onde o empenho dos países mais desenvolvimentos  e industrializados é fulcral.

Em 2015 a palavra de ordem que saiu da Conferência de Paris sobre o clima foi de que iríamos conseguir mitigar o processo de aquecimento global, salvar a nossa civilização e “reestabilizar” o planeta.

Com a eleição de Donald Trump como Presidente dos EUA , que anunciou desde logo retirar-se do Acordo de Paris, o aquecimento global passou a ser classificado por este como uma ”invenção”, “uma total invenção”, “uma invenção muito cara”, “uma grandíssima, e muito cara, invenção” e, por fim, “uma merda caríssima”…

Que é isto? Bertold Brecht escreveu em “A vida de Galileu”: “Aquele que não conhece a verdade é meramente um idiota, mas aquele que a conhece e a chama de mentira é um criminoso”. O epíteto de idiota ou de estúpido tem sido frequentemente aplicado ao presidente Trump pelos seus recentes “biógrafos”, i.e. por muitos daqueles que com ele conviveram no seu percurso para a Casa Branca e que resolveram contar a historia em livro. Assim, a pergunta que faço é se Donald Trump está a mentir ou é simplesmente idiota? Estou convicto que é idiota no sentido em que nem sequer percebe a diferença entre condições meteorológicas e clima e que confunde tudo. E se calhar muitas das mentiras que lhe são atribuídas mais não são do que desconhecimento e idiotice.

Pronto, eu acho que tenho de lhe dar benefício da dúvida. Donald Trump não é mentiroso, acontece é que desconhece a verdade e, enfim, é idiota. Um idiota conveniente.

Mas isso abriga-o de ser considerado um criminoso? Bom, se Trump fosse um cidadão comum, sem poder, o facto de não conhecer a verdade e de ser um idiota não tinha qualquer qualquer problema e não seria tema de relevância. Mas se Trump é um idiota, o facto é que se trata de um idiota com muita, muita influência política e como tal uma ameaça. Nos tempos que vivemos, para travar o progresso do aquecimento global a governação é talvez mais importante que a ciência. Como tal a negação é um crime político de carácter global, um crime contra o planeta, um crime de ecocídio.

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