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Está a decorrer em Bona, no âmbito da convenção das Nações Unidas sobre o Quadro das Mudanças Climáticas, a COP23. Esta é suposto ser uma importante conferência de cariz mais técnico onde serão acordadas metas concretas e as respectivas medidas de monitorização, no contexto de cumprir com a proposta do acordo de Paris da COP21, de o mundo se tornar neutro em termos de emissões de gases de estufa e cumprir com o objectivo de manter a subida de temperatura abaixo dos 2ºC, idealmente nos 1,5ºC. Objectivos considerados fundamentais para a sobrevivência da nossa civilização.

Sem metas comuns e sem a fiscalização do cumprimento dessas metas será impossível manter aqueles objectivos. Um relatório recente da ONU mostra que os compromissos voluntários assumidos por numerosos países são francamente insuficientes, e nunca permitirão reduzir o aumento da temperatura abaixo de 3ºC . Nos termos deste relatório, a “distância entre a acção e as necessidades é catastrófica”, e o tempo não espera. O ano de 2017 será provavelmente um dos três anos mais quentes da história, sendo que os outros dois são 2015 e 2016! Neste ano, de 2017, o planeta foi fustigado pelos mais violentos furacões que varreram, só no Atlântico áreas imensas das Caraíbas à Irlanda e secas e incêndios fora do comum em Portugal e na Califórnia. Obviamente que o que hoje se coloca com muita urgência são não só medidas de mitigação, como também políticas de adaptação e reforço da resiliência. Mas sem metas globais e protocolos de monitorização o futuro não será apenas problemático como distópico.

Alguns observadores temem, em relação a esta COP23, que os objectivos previstos venham a ser afogados em mais discussões políticas e programáticas resultantes da anunciada saída do acordo de Paris por parte dos EUA, que são nem mais nem menos do que o país do mundo com maiores emissões de gases de estufa. A ser assim, teríamos de esperar pela COP24 ou até pela COP25 para acordar metas e medidas.

Ontem, a jornalista Fernanda Gabriel da RTP em Estrasburgo perguntava-me o que é que, enquanto estado membro, Portugal pode esperar da União Europeia e da Comissão Europeia? Esta questão fez-me refletir na situação comparada da UE e dos EUA. A UE está fortemente empenhada na estratégia de mitigação das mudanças, assim como o estão os seus Estados membros, sendo, aliás, um dos líderes mundiais neste processo. Nos EUA o actual governo federal, através de Donald Trump, desvinculou-se do acordo de Paris, mas muitos dos seus Estados federados mantêm-se comprometidos e francamente empenhados nos compromissos de Paris e, podemos subentender, nas metas e medidas que vierem a ser definidas para implementar os objectivos do acordo. Daqui podemos deduzir que estes Estados federados terão de assumir, sem a ajuda do governo federal dos EUA, os compromissos financeiros para implementarem as reformas necessárias, enquanto na UE a CE acompanhará e apoiará orçamentalmente os esforços financeiros dos seus Estados membros.

E vão ser muitos. Em Portugal, por exemplo, haverá que iniciar reformas na agricultura. A agricultura intensiva de regadio consome muita água que, com as secas, começa a escassear. Nos países do Sul, em particular, temos de ter uma agricultura (que actualmente em Portugal consome 75% da água) menos dependente de grandes quantidade de água.

Nos últimos tempos, porventura fruto dos fenómenos climáticos extremos a que temos assistido, a opinião pública tem demonstrado grande atenção e preocupação em relação aos efeitos das alterações climáticas. Bem sabemos que as mudanças no modelo económico que são necessárias operar só lograrão o sucesso se tiverem o apoio dos cidadãos. Vivemos, por isso, apesar de Trump, tempos de esperança.

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