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Há poucas semanas tinha-me preparado para proferir duas palestras que, pelo correr da pena, se arriscavam tornar “instrutivas” e “monótonas”, muito baseadas em estatísticas europeias e programas para o crescimento, emprego e empresas. Por coincidência, na manhã da minha deslocação para os debates apanhei o “New York Times International” que incluía um conjunto de artigos sobre a nova encíclica Papal “Laudate Si”, que aborda o paradoxo do desenvolvimento e do crescimento na nossa “casa comum”, no planeta Terra. Descarreguei o documento da internet e, ao ler, fiquei francamente impressionado pela visão crítica, desacomodada e corajosa que a nova Encíclica abraça. Fez-me despertar. Comecei a substituir o power point maçudo, e com o qual aliás me sentia desconfortável, por texto e notas que se adequavam certamente a algumas das reflexões que me têm movido no Parlamento e fora dele: uma abordagem crítica da questão do crescimento sustentável, dos desafios do planeta e dos limites para o crescimento…

Vivemos num planeta sobrepovoado, insustentável, doente, assimétrico em termos de desenvolvimento e de oportunidades, e em período de mudanças climatéricas causadas por pressões antropogénicas. Época complexa de facto. Criámos neste século as condições para um enorme salto qualitativo do nosso conhecimento e do desenvolvimento, mas a riqueza desse conhecimento está a ser prejudicada pela destruição dos recursos naturais, da biodiversidade e dos ecossistemas em que se poderiam basear as oportunidades de crescimento sustentável.

No dizer de Naomi Klein, no seu livro “Isto Muda Tudo. Capitalismo versus Clima”: “… o nosso sistema económico e o nosso sistema planetário estão em guerra.” Este ponto de vista parece ser, com as diferenças decorrentes de aproximações ideológicas distintas, partilhado na encíclica do Papa Francisco. A nova encíclica sobre o ambiente faz uma chamada para a acção, uma crítica do consumismo e um aviso profético a que o papa chama a “crise ecológica”, com impacto directo no desenvolvimento sustentável. Ele é claro ao afirmar que “a maioria do aquecimento global nas décadas recentes é devido à grande concentração de gazes de estufa libertados principalmente pela actividade humana”, identifica um dos eixos do mal que se instalou e que está na base do desenvolvimento assimétrico e na injustiça nas economias: “uma continuada exploração e destruição do ambiente, pelo qual culpa a apatia e a procura fácil do lucro, fé excessiva na tecnologia e curta visão política. Neste contexto as vitimas mais vulneráveis são os povos mais pobres do mundo, que estão a ser deslocados e esquecidos.”
O discurso do crescimento sustentável, diz a encíclica, “torna-se um diversivo e um meio de justificação que absorve valores do discurso ecologista dentro da lógica da finança e da tecnocracia, e a responsabilidade social e ambiental das empresas reduz-se, na maior parte dos casos, a uma série de acções de publicidade e imagem.” Pouco importa como se investe para crescer e isto conduz-me à estratégia do “crescimento azul”, a estratégia para a criação de emprego baseada na “economia azul”. Anunciada, aprovada, publicitada e aplaudida pela comissão Europeia, e eu próprio vejo nela uma estratégia de grande interesse. Mas também lhe reconheço o seu subliminar carácter esquizofrénico, uma dicotomia de polos, uma dupla natureza, um Dr Jekyll e Mr Hyde. Há aqui também o perigo de um processo de acumulação. E agora vamos para o mar! Vamos expandir!
Um loop perigoso. Assim, o paradoxo do crescimento azul terá de ser o paradoxo do crescimento em geral. O Crescimento Azul não pode cobrir todas as indústrias relacionadas com os oceanos. O crescimento azul tem de ir, par a par, com o desenvolvimento sustentável baseado no princípio da precaução, do conhecimento científico e da inovação amiga do ambiente e dos ecossistemas. Em última instância pode não ser crescimento adicional, mas crescimento em substituição.

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