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No entusiasmo da inauguração da Grande Feira Internacional das Pescas de Londres, decorria o ano de 1883, o eminente cientista Thomas Henry Huxley ecoou um lastimável equívoco ao acentuar no seu curto discurso que “provavelmente todas as grandes pescarias marítimas são inesgotáveis; o mesmo é dizer que nada do que fazemos afeta seriamente o número de peixes.”

A sociedade inglesa iniciara havia uns anos a chamada revolução industrial. Tudo parecia possível. Os barcos de pesca iam mais longe com o vapor, a refrigeração melhorava a conservação, o peixe abundava. Provavelmente, o mar e os oceanos pareciam mais infinitos do que até então. Numa palavra: inesgotáveis. Thomas Huxley e os seus contemporâneos viviam uma crença. Um sentimento de pertença e fusão num oceano de plenitude.
Em 1955 dois distintos cientistas americanos, Francis Minot, diretor do então Instituto de Investigação em Engenharia Marinha e Pescas de Woods Hole, no Massachusetts, e Hawthorne Daniel, do Museu de História Natural de Nova Iorque, deram à estampa um livro intitulado The Inexhaustible Sea (O Mar Inesgotável) no qual, reconhecendo que, “apesar de não se saber o suficiente sobre o oceano” e “que muito deve ser aprendido”, rematam que, “no entanto, já começámos a aprender que o que ele tem para oferecer se estende para lá dos limites da nossa imaginação e um dia os homens vão aprender que, na sua generosidade, o mar é inesgotável”. Mas a imaginação narcísica, de poderio e controlo tecnológico, foi mais além. O inesgotável poderia ser multiplicável. Em 1966 um relatório do National Research Council dos EUA dá conta de uma proposta em que é sugerida o afundamento de reatores nucleares para que o calor residual criasse ressurgências ricas em nutrientes que alimentariam os peixes e aumentariam os mananciais acessíveis à pesca.
Foi necessário todo um século para que o Homem moderno começasse a aceitar que afinal os recursos vivos do Oceano são esgotáveis e contamináveis. Foi preciso o colapso de numerosas pescarias, entre as quais a do bacalhau, para que as atitudes mudassem. Hoje alguns mananciais de pescado estão deixados a recuperar. Fala-se mais e mais em pescarias sustentáveis. Mas será isso suficiente? Temos de reavaliar o que sustentabilidade realmente significa em termos de pescarias regionais e globais.
Sustentabilidade é, antes de mais, uma contribuição para assegurar o futuro, mas uma contribuição que implica fazer um corte na visão narcísica e imediatista de um querer vinculado ao lucro imediato, há hipoteca dos nossos recursos. Os recursos vivos, e assim as pescarias, têm um elemento que deixa tudo em aberto: são renováveis, se os deixarmos reproduzir-se.

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